Este é o terceiro ano consecutivo da realização de um evento voltado especificamente para o autismo e a cada ano a procura é maior, já que a ação é voltada para magistrados, servidores e público externo. No Tribunal de Justiça, cerca de 10 servidores têm filhos com o Transtorno do Espectro Autista e, segundo a organizadora do workshop, Jane Selma Barbosa, essa foi uma forma encontrada para alertar e informar o público-alvo.
A aceitação e a eliminação do preconceito, especialmente na família de um autista, são alguns dos fatores primordiais para a inclusão, não apenas do autista, mas de qualquer cidadão, seja na sociedade ou na escola. Esse é o entendimento do professor e neuropsicopedagogo, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Kilwuangy Kya Kapitango-a-Samba, que participou da roda de conversa realizada durante o evento. “Qualquer pessoa tem direito à educação escolar, um direito fundamental inerente ao cidadão. Temos que tentar encontrar elementos que nos permitam mitigar tudo aquilo que se torna obstáculo a qualquer cidadão. Temos que eliminar barreiras, que são os preconceitos na família e nos espaços sociais e entender que essas especificidades são meramente acidentes e não são elementos inerentes ao ser humano”.
Uma das maiores dificuldades, atualmente, para que a inclusão escolar ocorra é no que se refere à capacitação profissional, segundo a fonoaudióloga Adriana Fernandes, que ministrou palestra com o tema: ‘Inclusão Escolar da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista’. “Em termos de estrutura está muito complicado, mas a capacitação profissional, sendo bem feita, compensa a dificuldade estrutural. É importante potencializar o que já está sendo feito de bom e de positivo nesse movimento para que essas pessoas realmente tenham uma inclusão efetiva no ambiente escolar das pessoas autistas. Por isso, a importância desse evento proporcionado para tanta gente, aberto para público para discutirmos e começarmos a pensar na matriz pedagógica curricular e realmente repensar o olhar para essas pessoas dentro da escola, dentro do ambiente escolar.”
Há 29 anos atuando na área de educação especial, a professora Helena tem quatro filhos, dois são autistas. Há um ano, a filha de dois anos teve o diagnóstico de autismo fechado após a mãe perceber a regressão na fala, e pouca interação com as pessoas, especialmente no âmbito familiar. Após um ano de tratamento, Helena conta que são visíveis as mudanças e evolução da criança, mostrando a importância do diagnóstico precoce. Nesse um ano de tratamento da filha mais nova, a professora passou a observar a outra filha de 18 anos e percebeu comportamentos e dificuldades de interação social. Há três meses diagnosticada também com autismo, hoje a jovem faz terapia, e a mãe conta a luta que é fazer os acompanhamentos necessários, já que não há tratamento disponível na rede pública de saúde. “Tudo a gente tem que custear porque os planos de saúde não cobrem e o diagnóstico ainda não chegou ao consultório dos pediatras. Com isso, é muito importante fazer eventos como esse. O tribunal está de parabéns apoiando essa causa”.
Cátia agradeceu a presença dos participantes que contribuíram para o enriquecimento do debate, como a Ong Ação Azul e daqueles que participaram da roda de conversa, palestra, ou como espectadores. “Esse evento vem aperfeiçoar a intenção de valorizar as ações inclusivas. Sabemos que esse é um transtorno que acontece em muitos lares e o Poder Judiciário não pode ser visto como um simples homologador de conflitos, e sim como um ente que participa na socialização e conscientização a respeito da problemática desse transtorno. Importante ressaltar que essa ação foi solicitada pelo Programa Bem Viver alinhada aos eixos de atuação do biênio 2019/2020, em especial a atuação institucional e a gestão de pessoas e organização, com total apoio do Poder Judiciário”, destaca.
Uma das participações da roda de conversa foi do deputado estadual Wilson Santos (PSDB), que é autor do projeto do primeiro Simpósio de Políticas Públicas para o Autismo e que tem realizado várias ações nesse sentido, como reuniões e audiências públicas.